|
A sua cara empalideceu. Os seus olhos enevoados de fúria tornaram-se de novo, azuis como o céu. Aquele olhar escondido começava a fugir de mim, a fugir da verdade. Nada mais podia fazer senão isso: fugir. Guardou a mentira no bolso das calças e agarrou uma das minhas mãos com uma das suas. Com a outra, limpou as lágrimas que me espreitavam, dos seus olhos. Arrastou a manga da camisola até à chuva que caía para fora de si na tentativa de não deixar quaisquer vestígios daquela dor fingida. - I’m so sorry! I never imagined I could hurt you like this. I’m so sorry!… So sorry… - disse, chorando. Por momentos, deixei-me embalar por aquele choro melancólico, por aquela melodia sofrida, pelos murmúrios de perdão que gemia, pelas desculpas rasgadas que me entregava... Dizia, repetidamente, que me amava. Que me amava loucamente. Que eu era dele e que ele seria meu, para todo o sempre. Que nada nem ninguém alteraria o nosso amor. Sempre me disse isso, até hoje. Hoje encontrei-o, ao fim de muitos anos de ausência ininterrupta. Está igual. Os olhos de céu, os cabelos raiados de sol, a cara de anjo, o sorriso de lua cheia – tudo se mantém. Aparentemente calmo, transpirava a tensão de quem se reencontra, perdido em sentimentos guardados. Hoje, tal como Ontem, disse que me amava; hoje, sem palavras, com suspiros invisíveis e sussurros encantados que o seu olhar me cantava. Vi, hoje, um amor que nunca antes tinha sentido – um amor puro. Afinal, o nosso amor sobreviveu à passagem do tempo que corre, desesperado, atrás de nós; sobreviveu à distância que nos separou, uma distância construída de sonhos riscados na noite em que espelhei em mim a verdade de uma mentira; sobreviveu a tudo. Menos a nós. Ambos respirávamos o amor sentido pelo outro. Mas eu não queria respirá-lo, não queria uma parte dele dentro de mim. Preferi sufocar, preferi uma asfixia que me arranhava o peito e o coração a senti-lo de novo agarrado a mim, agarrado à minha vida; preferi largar o ar que me prendia à vida, para não me prender a ele. Rejeitei o seu amor porque ele despedaçou o meu. Arranhei-lhe a alma porque ele me esfarrapou o espírito. Troquei-o pela solidão do abandono porque ele me trocou pelo impulso de um desejo, sedento de uma paixão que nunca existiu. Rejeitei-o porque o amo; porque o verdadeiro amor não se apaga, apenas tem tendência a ser guardado e fechado numa gaveta, se não for igualmente amado. A minha gaveta dele nunca se fechou... |
| Bruno February 25, 2005 03:54 AM PST Um comentário que não foi 'tirado a ferros', e que é o primeiro.. Inesperado... Não é como 'algo' pelo qual me conheceste um dia há muito tempo atrás, mas como me conheces agora que te "digo" isto... Que posso escrever senão apenas concordar com o que escreves nalgumas passagens, que me dizem muito, e 'tocam' de forma especial, intencionais ou não... Sim, o amor puro sobrevive aos tempos e às distâncias, sobrevive a qualquer adversidade e até ao próprio esquecimento, se for verdadeiro. Eu sei... Mas também notei um certo 'sofrimento' neste texto que não gostei de ler... Há certas gavetas que nunca se fecharão... ..a perfect *A*.. | ||
| Leave a Comment: |