Entry: Elevador Friday, February 11, 2005



        

            Teresa chamou o elevador e começou a bater o pé insistentemente, na esperança de que ele se apressasse. Ouviu a porta do prédio abrir e fechar e virou-se para trás, quase instintivamente. Morava ali havia pouco tempo: ainda não estava habituada, ainda não conhecia os vizinhos, ainda não conhecia a sua casa como sua.

            Um homem, mais ou menos da sua idade, entrou. Sorriu-lhe e cumprimentou-a com  um “Good Evening” que lhe pareceu bastante simpático. Subiu as três escadinhas da entrada e, também ele, aguardou pelo elevador.

            Finalmente chegara. Ele abriu-lhe a porta e ela agradeceu. Ela perguntou-lhe qual o andar e ele respondeu “Third, please”. Carregou, então, no botão do terceiro andar e, seguidamente, no quinto, o seu. O elevador parou e ele saiu, sorrindo-lhe docemente.

            Entrou em casa meio atarantada. Seria impossível ser quem ela pensava. Aqueles olhos azuis como o céu, aquele cabelo (ainda que ligeiramente maior), aquele sorriso doce... sabia que o conhecia de algum lado. Posto isto, decidiu, nesse exacto momento, que já era mais do que altura  de deixar paixonetas platónicas de lado.

           

         Pousou a pasta preta que trazia do emprego e, por não estar com paciência de ir cozinhar, achou por bem ir jantar fora. Tomou um banho, vestiu-se convenientemente e procurou a sua mala, já pronta a sair.

            Subitamente, a campainha tocou. Quem poderia ser às 8 da noite?...não conhecia ninguém tirando os seus companheiros de trabalho e esses, de certeza, não lhe viriam bater à porta.

            Abriu a porta. E corou.

            - I was just wondering if you’d like to have dinner with me tonight… - disse ansioso e sorriu, retribuindo o enorme sorriso que o rosto dela desenhou

               - It would be really nice.

            Sentiu o rubor que lhe aquecia a face e reparou que ele também corara. As suas pernas começaram a dar de si, o seu corpo tremelicava, o seu coração disparou.

            Pegou na mala e juntou-se a ele. Seguiram juntos para o elevador. Nenhum dos dois se atrevia a dizer coisa alguma. Limitavam-se a olhar um para o outro e, assim que os olhares se cruzavam, sorriam muito doce e levemente e olhavam imediatamente para o chão, corando ainda mais. Pareciam dois adolescentes que descobrem que o amor à primeira vista, de facto, existe.

           

             Saíram do prédio. Estava frio e a chuva ameaçava cair. Afinal, era em Inglaterra que estavam.

            O silêncio entre os dois era invadido apenas pelo barulho dos carros que passavam e pelas músicas de Natal que se iam ouvindo perto das montras das lojas. Os passos que davam em sincronia estavam ansiosos. O silêncio barulhento das ruas da cidade não os afectava – estavam os dois dentro de uma bolha onde nada mais podia estar sem ser o ar que respiravam. O que suspiravam eram desabafos de uma paixão perdida nos braços do tempo; uma paixão irreal que vivia dos sonhos e da imaginação de cada um, presa a recordações de algo que nunca aconteceu.

            Entraram no restaurante e sentaram-se numa mesa de dois, junto à janela, fazendo-se acompanhar pelos murmúrios agitados da vida caótica lá fora. Ali instalados, olharam os olhos de cada um e voltaram a sorrir, corando loucamente. De novo dois adolescentes apaixonados, de novo um platonismo inquietante.

            Escolheram e comeram.

            Sem nunca trocarem palavras entre si, conversaram toda a noite, ali, sobrevoando pensamentos de ardor e fantasia.

            A sobremesa chegou: bolo de chocolate. Completamente absortos  naquele mundo pueril de paixões desencantadas, não repararam na coincidência de terem pedido a mesma coisa. Assim que o notaram, deixaram de sorrir para rir. Guardaram o rubor que lhes pintava o rosto dentro de si, para crescerem até ao momento em que se encontravam. Pegaram nas palavras que não usaram e montaram-nas num “puzzle” quase sem nexo. Atropelavam as sílabas e enrolavam as letras com gargalhadas sedentas de uma emoção quente que teimava em acomodar-se no coração de cada um.

           

            De regresso a casa, transpiravam a simpatia e a delícia de quem está satisfeito com o que sente. Os passos tenso que haviam dado, antes de uma refeição de calor, eram apagados por gestos desprendidos e movimentos soltos  de sedução instintiva.

            Os suspiros que encheram o elevador misturavam-se com as palavras trôpegas que se esforçavam por emendar. Os doces olhos azuis dele perderam-se de amores por ela. Discretamente sorriam para ela, na esperança de receber esse sorriso de volta.

            O elevador parou no 5ºandar. Ambos esticaram a mão para abrir a porta. Tocaram-se levemente: um beijo de fugida, como se não fosse suposto acontecer.

Sentiu-se quente por dentro, como há já muito não se sentia. Respirou fundo, como se suspirasse de prazer. Saiu e voltou-se para ele. Sorriu num tom de provocação.

               - Can I see you again?

            - Sure… I live just two floors above you – respondeu ela, com ironia

            Ele despediu-se com um olhar meio apaixonado e ela com um sorriso derretido.

          Entrou em casa e atirou-se para cima da cama, exausta. Sorriu e adormeceu, esperando que a manhã do dia seguinte chegasse mais cedo, para dormir até tarde.

   5 comments

Skizo
February 13, 2005   03:58 PM PST
 
Aqui me encontro novamente a "dizer" novamente o que já foi "dito" em tempos... =P
Pessoalmente, já fizeste textos melhores. Acho que certas coisas acontecem depressa demais, outras como um "choque", mesmo que ja se conhecessem acho que haveria espaço entre as coisas...
Mas achei piada ao ponto de referires que não disseram nada a noite toda. Porque há alturas assim. Momentos em que se fala mas não se 'diz' nada... Onde não dizemos o que realmente queremos dizer, por uma razão ou por outra...
Pronto, está comentado :P
perfect*
A
serenity
February 12, 2005   11:41 PM PST
 
Oix! Como prometido tou aki a comentar! O texto tá mt giro mm! K + posso dizer... k tens um talento pa escrita fantástico, mas axo k já sabes disso!! lolol
Jinhos gands ^_^**********
Alguém, algures por aí fora...
February 12, 2005   10:21 PM PST
 
"De novo dois adolescentes apaixonados, de novo um platonismo inquietante."
Aprende a escrever pah...
para variar não sei que comentar se não... transcrever o que tu escreveste e que provavelmente era bom que assim acontecesse
Luana
February 12, 2005   03:57 PM PST
 
Um texto simpático. Gostei =)
Beijo grande **
Ricardo!
February 12, 2005   03:06 PM PST
 
Oba, já à um tempo k n comentava no teu blog, no entanto tenho-o lido, finalmente hoje tive alguns minutos para escrever mais umas palavritas sem sentido... Bem fantastico o k um elevador faz às pessoas! Continuan assim...
Pax, sorte & amori, e ptt mal! ***

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